O inusitado acontece todos os dias. Como o sujeito que esbarrou em si mesmo no espelho de um bar. Achou que era uma porta. Não se reconheceu, pediu desculpa e desviou. Só no segundo esbarrão foi que entendeu o acontecido...

Não me reconheço no espelho. Ainda me surpreendo com o que percebo em mim. Às vezes, mais doce. Muitas vezes mais, áspera, de uma dureza que não me cabe. Pareço estranha a mim.

Como se reconhecesse minha voz na de outra pessoa, numa conversa pela qual passo, atravessando a rua.

A acidez me vem mais fácil e acabo soando como o que mais detesto: gente cheia de verdades, que não admite sua ignorância sobre todas as coisas. Pedante, prepotente e, o pior de tudo, nervosa e descontrolada.

E isso não é uma tentativa de justificativa pra minhas atitudes bizarras. É só uma constatação de que todos não estão loucos (ou surdos - viva o rei!). Eles me vêem como me deixo ser vista. Constatação de que, se eu não me vejo assim, talvez esteja olhando de perto demais ou fazendo esforço de menos para agir diferente. Talvez, as duas coisas.